08/01/2012

Um pó

Entrei no segundo andar em não vi ninguém. Subi até lá com esperança de encontrar Jason, um amigo de infância que iria me ensinar a usar o computador da empresa. Fiquei ansiosa, pois há 20 anos não via um computador de perto. Morar na ilha junto com minha mãe esse tempo todo me mostrou que quanto mais tempo distante da civilização ficamos, mas desatualizados nos tornamos. Mas apesar de ter esquecido como se usa um aparelho tão lindo, aprendi coisas que não valeria a pena escrever aqui, você ficariam muito confusos.

Foi então que fiquei surpresa ao não encontrar Jason na sala dele. O que pode ter acontecido com aquele rapaz, 50 anos, nome de assassino em série da TV, maravilhoso, educado e... casado? Olhei na mesa dele e só pude ver sua jaqueta enorme, estilo aquelas utilizadas por esquimós.

Isso levou minha imaginação para lugares diversas vezes habitados. Morar numa ilha de pescadores, afastada de tudo, sem energia elétrica, televisão, barulho, sem gente aos montes como aqui na cidade, permitiram que eu lesse todos os livros que queria. Combustível suficiente para alimentar uma mente cheia de vontades e desejos como a minha.

Jason não estava lá, isso era fato. Mas sua jaqueta estava de tal forma que me fizeram achar que ele teria virado pó, ou um ratinho daqueles de filmes mesmo, lindos e fofinhos. Naquela altura, ele deveria estar junto a outros ratinhos bolando um plano para tentar descobrir como sair daquela situação nada engraçada.

Comecei a ter medo da mesma coisa acontecer comigo, mas se eu poderia fazer alguma coisa de boa pelo meu amigo, era tirá-lo daquela situação. Achei então que a melhor coisa a fazer era procurá-lo.

Jason! Jason! Jason!

Olhei por todas as partes, todos os lugares, em outros cômodos do mesmo andar, em gavetas, em caixas, atrás de livros e nada do meu amigo. Foi aí que vi que o andar era todo monitorado por câmeras e que os seguranças deveriam estar rindo de mim, a maluca. Ou deveriam estar imaginando que eu procurava algo de valor para roubar. Me senti uma bandida.

Estava disposta a explicar tudo. Que aquilo era uma tentativa de encontrar o Jason, o chefe mais legal que todos do banco já tiveram. Pensei em contar minha experiência na ilha, nos amigos que cultivei, e os rituais que aprendi. Mas comecei a ter medo. Quem acreditaria em mim se eu dissesse que procurava um amigo que acabara de virar rato?

Fiquei com medo e resolvi acabar com as suspeitas. Com a ajuda de uma vassoura que encontrei num cômodo abandonado no fim do corredor, quebrei todas as câmeras que vi. Não tive medo, aquilo tudo era para evitar incômodos na minha busca por Jason.

Depois de revirar o segundo andar, me senti na obrigação de olhar nos outros dois que havia no prédio do banco. Àquela altura, depois de ter demorado, imaginei que meu amigo já deveria ter descido, ou subido, atrás de quem o tornara um ratinho estranho.

Depois de uma hora revirando tudo que podia e não podia, e ter quebrado mais de 30 câmeras para afastar suspeitas, voltei ao segundo andar em busca de pistas. Encostei no computador do Jason e vi a foto de uma mulher. Achei estranho, pois no meu pensamento Jason não gostava muito de mulheres. Mas o que são 30 anos para mudar a vida de alguém?!

Fiquei com medo de que aquela mulher de cabelos negros e olhos verdes poderia então ser uma bruxa. Será que tinha dedos nos pés? Não tinha como saber, pois eu não consegui mexer naquela máquina. Afinal era pra isso que eu tinha ido naquele lugar. Aprender a mexer em um computador após tempo suficiente para tudo ter mudado de tamanho, de forma e de lugar.

Foi então que ouvi barulho de gente descendo do elevador. Era a voz de Jason, de uma criança e de uma mulher. Pareciam assustados e achavam que o prédio havia sido assaltado. Jason correu até a sala dele, onde eu me encontrava, e deu um grito. Apesar de não me reconhecer, achou que eu estava tentando mexer em seu computador. Seria eu uma hacker, pensei.

Jason me olhou, olhou e ligou para a segurança. "Fiquem tranquilos. Essa mulher é uma conhecida minha. Não chamem a polícia".

Olhou para mim e perguntou: por que você fez isso, Iara? Ficou louca de vez?

Eu respondi: como você conseguiu virar humano outra vez?



Fonte da foto: Weheart.it

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