Eu ando e sei que não posso parar. Talvez é a brisa que cai lá fora, em pleno dia. Mas como cai uma brisa em pleno dia? Não sei. Sei que não posso competir com meu outro eu que insiste em pegar o livro e correr. Corre, moço, corre. Dança e pula. E grita. Já reparou o tanto que digo grito? Digo grito, digo grito. E danço como se não pudesse parar. Que chato, descontente, saudade do cheiro de café da vizinha debaixo. Mas agora não tenho vizinha em baixo, pois moro no primeiro andar. Droga. Droga sem café que no fim das contas é droga, mas que não é proibido porque não dá lucro como as outras drogas dão. Estranho. Estranho é sentar, ficar o dia todo aí, olhando, sem fazer nada. Levanta a bunda dessa cadeira e vá fazer algo da sua vida. Que vida? Quem fica assim já não tem vida, não tem sopro, nem gosto. Prefiro assim, sem gosto. Porque não posso fazer nada a não ser reclamar. Meu pesar.
E sempre que penso no que devo fazer lembro logo do que fiz. E vejo que fiz muita coisa, mas que ainda quero fazer o dobro, triplo. Quem sabe eu viva 80 anos. Assim já estará bom o suficiente para que eu me mova sobre as estrelas. Ou melhor, sob as estrelas. Não acredito que vá passar daquela altura. Talvez eu fique muito embaixo. A sete palmos.
Mas isso é assunto para muitos anos a partir de hoje. Partir, ir. Vou-me.















